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Eu me sinto velha. Uma velha chata.

Isso não tem relação com meus 41 anos ou com meus fios grisalhos.

Me sinto velha, mesmo entre mulheres da minha idade. Eu já me sentia velha aos 18, quando era a única que, ao invés de sonhar com cargos executivos e sucesso profissional, tinha enxoval bordado à mão, queria casar de branco e ter uma casa cheia de filhos. Eu já era velha em 1990.

Me sinto velha quando troco o shopping por uma cama quentinha e um filme em família.

Me sinto velha quando fujo para um cantinho no meio do mato onde não tenha sinal de celular e eu possa passar o final de semana bordando. Ou sentada, vendo as crianças rolarem na grama. Ou simplesmente fazendo nada que seja digno de um post no Facebook.

Me sinto velha quando converso com minhas plantas, faço bainha à mão ou revelo fotos para montar álbuns.

Aqui em casa não tem som alto, não tem TV ligada o tempo todo, tem hora pra tudo. Porque eu sou velha e chata.

Por vezes até me culpo, me sinto um ET. Mas simplesmente não consigo deixar de ser velha.

 

Agora veja, não sou ultrapassada.

Eu amo a tecnologia. Gosto de inovações que facilitam nossa vida e economizam nosso tempo. Amo minha lava-louças, meu microondas e meu Netflix.

Trabalho cerca de 6h por dia no computador. Carrego meu escritório no celular e estou sempre por dentro das ultimas tendências por exigências da profissão.

Não sou ultrapassada. Mas continuo sendo velha.

 

Sou de um tempo em que se trabalhava até as 17h e depois, todo mundo ia pra casa curtir a família. Por isso não entendo quando um cliente me manda um “zap” às 22h e espera uma resposta imediata.

Sou de um tempo de restaurantes à la carte, e de longos papos à mesa.

Por isso não consigo entender quando vejo pessoas “jantando” com seus seguidores ao invés de aproveitarem a companhia da pessoa de carne e osso que está na sua frente.

Certa vez uma senhora veio até minha mesa, espantada, pois não entendia como eu podia estar sozinha com 3 crianças, comendo tranquilamente sem nenhum eletrônico à mesa. Expliquei a ela que isso era um costume em nossa casa. Não levamos celulares à mesa. Porque somos velhos e chatos.

Sou de um tempo em que a gente só fotografava momentos especiais. Ninguém tirava foto de prato de comida ou do pé. Também não se fazia “biquinho” pra foto, só sorrisos sinceros e despretensiosos. Porque a gente não compartilhava nossa intimidade com todo mundo, só com quem frequentava nossa casa. Por isso não consigo entender as redes sociais e toda essa superexposição. Desculpem, sou muito velha.

 

Eu sou chata, não deixo que meus filhos tenham redes sociais e sigam Youtubers famosos que não acrescentam nada na vida deles.

Eles têm hora para usar eletrônicos e tudo é monitorado. Não me venha com o papo “moderninho” de privacidade. Eu sou velha e chata, isso não cola comigo.

 

Ensino a eles que imagem não é tudo e que, mais do que cuidar do sorriso, eles devem cuidar do coração.

Ensino para eles que nosso cérebro não foi projetado para ser multitarefas mas que ele é um órgão extremamente adaptável. Quando mais a gente estimula, mais ele se acostuma com a velocidade. Não é de se estranhar que hoje haja tantas crianças estressadas, com problemas de sono e recorrendo a barbitúricos.

 

Ensino a importância de cuidar do corpo, das atividades físicas regulares e de 8h de sono.

Aqui em casa, todo mundo vai pra cama cedo, inclusive os adultos. Porque somos velhos e chatos e entendemos que o sono é necessário para repor as energias, produzir hormônios e renovar a memória.

 

Ensino que na vida é preciso ter rotina, agenda e tarefas. Então aqui em casa tem hora pra fazer trabalho de escola, pra ver TV, pra tomar banho e pra comer.

Todos têm tarefas domésticas e agendas que ficam num local bem visível.

Porque eu sou velha e chata, acredito que criança só aprende a ter responsabilidade e disciplina se começa desde cedo.

 

E por fim, ensino meus filhos a serem “velhos”.

Em um tempo onde tudo é relativizado, onde a consciência se dilui na massa e ser “moderninho” é aceitar tudo, ensino meus filhos a serem caretas. A terem valores e pensamentos próprios. A lerem bastante.

Ensino que é preciso fazer perguntas e questionar as escolhas. Pensar antes de agir. E refletir antes de apontar o dedo.

Em uma época onde todo mundo quer mudar a opinião do outro “no grito” (ou na CAIXA ALTA), ensino que eles podem, sim, mudar o mundo, mas a partir da mudança que eles promovem em si mesmos e, só então, nos outros ao redor.

 

Um trabalho de formiguinha, extremamente cansativo, mas que me enche de esperança quando, na correria do dia, me deparo com outras velhas e chatas como eu.

(artigo para a revista Visão Missionária da UFMBB – Adquira AQUI)

Carla
Carla
Carla Machado é casada com Ronald há 17 anos e é mãe da Lisa, do Levi e da Laís. É palestrante e coach de pais com especialização em Eneagrama, certificada pela International Enneagram Association.

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